Sexta-feira, Março 18, 2005
DOS RUSSOS E OUTRAS HISTÓRIAS
Quando Aurora Bernardini entrou na sala vi que era portadora de boas novas.
Como que saída de uma página literária, tinha ares de personagem de ficção: olhos azuis muito miúdos, cabelos de fogo, encaracolados e espetados no topo da cabeça, e uma espécie de frenesi constante, que movimentava seu corpo robusto de lá para cá, num ritmo estranho ao gestual meio engessado comum aos acadêmicos.
Reparei nos dedos de Aurora. Aurora tem dedos róseos e carrega um pouco do poder mítico homérico porque de fato ilumina o caminho de quem está ao seu redor.
Ela entrou na sala meio esbaforida, com os braços carregados de livros muito velhos, alguns sem capa, além de várias pastas plásticas, coloridas e também muito antigas, das quais retirou papéis amarelados pelo tempo e repletos de notas de leitura, rabiscos e interrogações.
Os livros - explicou - tinha apanhado no sebo de um conhecido, caso nos interessássemos em adquiri-los.
Aurora é professora de literatura russa na USP. Estava ali para nos falar de Tolstói, Tchekhov, Górki, Bródski.
Começou sua aula contando-nos um pouco da biografia de Tolstói: do seu autodidatismo, da disciplina com que conduzia seus estudos, do fascínio pelo tema do adultério, da escrita por temas, de sua interpretação do evangelho e sua visão sobre a arte.
Entremeava seu discurso com a leitura de trechos da obra do autor e observações que deixavam claro o quanto algumas das idéias do escritor russo passaram a conduzir suas próprias atitudes como professora, orientadora e crítica.
Uma das máximas de Tolstoi era: "Se você se propuser a fazer algo, faça-o, apesar de tudo". Aurora diz que não aceita justificativas de seus alunos quando não entregam trabalhos, descumprem prazos, não lêem os textos pedidos. "Justificativa todo mundo tem, sejam elas banais ou graves. Então não posso aceitar".
Por uma via indireta, reforçou uma crença que eu já tinha, mas da qual andava meio esquecida. É preciso se comprometer com a gente mesmo, com nossos desejos e objetivos no que quer que a gente faça.
Seja para preparar um bolo, criar um filho, fazer uma pós-graduação, cuidar dos nossos pais, aprender uma segunda língua, ler um livro. Tudo na vida requer comprometimento.
Como estou fazendo o curso de literatura russa e conheço pouco os russos, comecei a ler a bibliografia indicada nas aulas da professora Aurora, mesmo se tratando de um curso livre, para o qual não sou obrigada a fazer relatórios de leitura, resumos ou provas.
Minha primeira leitura foi "A morte de Ivan Ilitch", um relato comovente sobre um homem que à beira da morte descobre ter desperdiçado sua vida com falsas conquistas e se vê condenado a morrer sem o afeto de familiares e amigos, só encontrando algum consolo na dedicação de um servo.
De "Ivan Ilitch", passei para "Servidores e Servos" e depois para "As três mortes", belíssimos exemplares da arte de Tolstói.
Sei que ler três contos apenas, sem conhecer seus famosos e monumentais "Guerra e Paz" e "Ana Kariênina", é muito pouco. Mas como disse Julio Cortázar, em seu "Valise de Cronópio", em que cita "A morte de Ivan Ilitch" como um dos contos de sua coleção pessoal, "todo conto perdurável é como a semente onde dorme a árvore gigantesca. Essa árvore crescerá em nós, inscreverá seu nome em nossa memória".
Enquanto escrevo, como faço agora, tenho por hábito cercar-me dos livros que comento, folheá-los, abri-los ao acaso, ler ou reler trechos aleatórios, consultar dicionários, como se ouvisse a voz do autor a me chamar querendo me confidenciar algum segredo.
Ainda há pouco, abri meu velho dicionário em busca do significado de Aurora, cujo sentido primeiro, descubro, é "período antes do nascer do sol, quando este já ilumina a parte da superfície terrestre ainda na sombra".
Os russos ainda representam uma gigantesca sombra no meu conhecimento literário. Uma sombra que acaba de ser atingida por um tênue feixe de luz, que há de ganhar força e resplandecer.
Movida por esse desejo, abro outra vez um dos livros de contos de Tolstói. Folheio as páginas com uma quase devoção. Meus olhos pousam novamente nas primeiras linhas de um deles. Leio e sou tomada por um assombro:
"O céu se abria cada vez mais alto, a aurora avançava na amplidão, o matiz de prata baça do orvalho começava a branquejar, o crescente ficava mortiço, a floresta mais sonora, as pessoas levantavam-se, e na estrebaria senhorial mais e mais se ouviam o bufo, a algazarra na palha e o relincho estridente e raivoso dos cavalos apinhados, brigando por alguma coisa".
A memória me lança de volta ao texto de Cortázar citado há pouco. Diz ele:
"O excepcional reside numa qualidade parecida à do imã; um bom tema atrai todo um sistema de relações conexas, coagula no autor, e mais tarde no leitor, uma imensa quantidade de noções, entrevisões, sentimentos e até idéias que lhe flutuavam virtualmente na memória ou na sensibilidade; um bom tema é como um sol, um astro em torno do qual gira um sistema planetário de que muitas vezes não se tinha consciência até que o contista, astrônomo de palavras, nos revela a sua existência".
publicado por Simone Paulino em 2:09 PM Comments:
Segunda-feira, Março 07, 2005
BAGAGEM
Quando estava escrevendo meu livro de contos - que, se tudo correr bem, deve ser lançado na primeira quinzena de junho - eu vivia um período de paixão absoluta por Adélia Prado.
Ganhara de um amigo o livro "Filandras", comprara na seqüência "Manuscritos de Felipa" e o "Caderno de Literatura Brasileira" sobre ela.
Lembro-me que ao ler seus textos, me identifiquei muito com seu universo e cheguei a considerar-me como membro de sua família literária.
Quando soube da história de que ela mandara os manuscritos de seu primeiro livro para o Drummond, e de que fora ele o primeiro a escrever sobre ela, resolvi imitá-la.
Reuni os contos que havia escrito até então, e com uma cartinha humilde, enviei para Divinópolis, cidadezinha mineira onde vive a poeta.
Passaram-se um ou dois meses e não recebi resposta. Já achava que meus textos tivessem ido parar no lixo. Fiquei desapontada.
Mais algum tempo e tive uma pane no computador. Perdi praticamente tudo que havia escrito, inclusive os textos enviados para a Adélia.
No desespero, resolvi enviar outra carta a ela, explicando o ocorrido e pedindo que, se os textos ainda estivessem em seu poder, que me devolvesse encarecidamente.
Outro mês se passou e nada. Foi quando soube que Adélia Prado participaria de um evento no Instituto Itaú Cultural. Estava lançando um CD em que recitava seus poemas, acompanhada de um grupo de músicos. Fiz minha inscrição imediatamente e esperei o dia chegar.
Exatamente na manhã do dia em que Adélia estaria aqui em São Paulo, recebi uma correspondência sua. Dentro do envelope branco, escrito à mão, estavam meus textos e um bilhete: "Simone, aí estão os textos. Graças a Deus! Que escreve certo por linhas tortas. Beijo grande pra você. Adélia Prado. Divinópolis"
Li aquelas linhas dezenas de vezes, feliz por tê-las recebido, infeliz por não encontrar ali nenhum indício de que ela lera os meus textos.
À noite fui à sua apresentação. Um momento inesquecível, não só para mim é certo, mas para todos que a viram cair em lágrimas no palco ao recitar uma poesia que fizera em homenagem a seu pai.
Acabado o espetáculo, fui para a longa fila de autógrafos, observando entre as frestas dos corpos à minha frente, relances do sorriso e do olhar daquela mulher tão extraordinária, que por vezes se assemelhava a uma diva, dessas muitos poderosas, e por outras fazia lembrar aquelas tias amorosas e faladeiras que quase todo mundo tem na família.
Quando chegou minha vez, expliquei que era eu a aspirante a escritora desastrada, que lhe enviara seus originais, sem se certificar de que tinha cópias. Que tinha recebido a correspondência dela e estava ali pra agradecer.
Ela então abriu um sorriso largo, me tomou as mãos nas suas e disse: "Graças a Deus! Você não imagina como fiquei aflita! Eu estava viajando para divulgar o CD. Quando voltei, tinha pilhas de correspondência e não consegui responder quase nada. Aí você mandou a carta e eu disse pro Zé, me ajuda, homem, que a gente tem que encontrar os textos da menina. Reviramos a casa, mas Graças a Deus, conseguimos achar!".
Com uma sinceridade comovente, ela disse não ter lido os textos, que não era descaso, mas que a vida dela estava tão difícil que eu nem imaginava.
Eu disse que não tinha importância, que entendia. Ela autografou meu livro. Agradeci outras tantas vezes, me despedi, e quando já ia me virando para ir embora, ela de novo me pegou pela mão. "Mas olha, não desiste não, tenha fé em Deus que se for da vontade dele, você vai fazer seu caminho!"
Saí do Itaú Cultural sentindo uma felicidade tão grande que não sei descrever. Fui caminhando pela Paulista, sentindo o vento no rosto e o coração cheio de esperança.
Abri o livro que ela autografara, passei de leve os dedos sobre as letras graúdas e senti um leve cheiro de uva no ar. Demorei a compreender que o cheiro de uva vinha da tinta da caneta, que também era cor de uva.
Até hoje quando abro o livro, não sei se a página em si ou apenas a minha memória, me faz sentir aquele inconfundível perfume no ar, um perfume a que tantas vezes recorri nos meus momentos de desânimo e de falta de inspiração.
Semana passada recebi um telefonema do meu editor, que queria retomar as negociações para a publicação do meu livro de contos, que ficaram paradas devido ao período de férias.
A alegria de ver mais próxima a possibilidade de publicar meu livro me deu vontade de passar a tarde numa livraria. Como sempre, fui para a Livraria da Vila e lá fiquei a rondar as estantes, sonhando com minhas palavras escritas se misturando às de tantos outros nomes que eu aprendi a amar.
Foi quando me deparei com uma belíssima pilha de livros caprichosamente empilhados. Junto à edição do "Filandras" que eu conheço, posso dizer, intimamente, estava uma delicada edição de "Bagagem", o primeiro livro da Adélia Prado, agora reeditado pela Record.
Larguei todos os outros livros que tinha à mão, e me pus a folheá-lo. Logo tinha lido uns três poemas. Mas ao chegar ao quarto, "Orfandade", uma tristeza antiga invadiu meu peito e quando vi, estava chorando um choro fora do lugar.
Meu livro de contos tem hoje o título de "Abraços Negados" e é dedicado a meu pai, que foi assassinado a cem metros da minha casa, quando eu tinha cinco anos. Uma "Bagagem" pesada que hei de carregar por toda a vida.
O poema "Orfandade" da Adélia, que eu nunca tinha lido, é assim:
"Meus Deus,
me dá cinco anos.
Me dá um pé de fedegoso com formiga preta,
me dá um Natal e sua véspera,
o ressonar das pessoas no quartinho.
Me dá a negrinha Fia pra eu brincar,
me dá uma noite pra eu dormir com minha mãe.
Me dá minha mãe, alegria sã e medo remediável,
me dá a mão, me cura de ser grande,
Ó meu Deus, ó meu pai,
Meu pai".
publicado por Simone Paulino em 11:08 AM Comments:
Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005
DA MEMÓRIA INVOLUNTÁRIA
A memória da gente é capaz de fazer conexões tão extraordinárias que a nossa própria razão desconhece.
Ontem pela manhã resolvi organizar, por ano de vida, as fotos do meu filho Gabriel. Um gesto simples, mas que talvez tivesse outra motivação a encobri-lo: quem sabe repassar o aprendizado vivido, na tentativa de buscar um atestado da minha capacidade materna e me convencer de que serei capaz de dar conta dessa menina (É UMA MENINA!) que agora carrego no ventre.
O fato é que em meio às fotos dele, encontrei uma das únicas fotografias que restaram do meu irmão, que morreu em agosto de 2000, seis meses depois do nascimento do Gabriel, coincidentemente, mês previsto para o nascimento da minha filha.
Vida e morte. Esses dois opostos que tanto me perturbam estavam ali de novo, espalhados sobre a minha cama, derramados sobre o meu coração.
Guardei a foto dele depois de olhá-la com carinho e tristeza. Confinei-a numa caixa que mentalmente ganhou o rótulo de passado, e fui cuidar da vida, porque os afazeres do presente não esperariam meu apego ao tempo que já não é.
À noite, já totalmente esquecida do que fizera pela manhã, tateei as estantes à procura de um novo livro. Queria começar a ler algo marcante, bom e duradouro. Algo que me tomasse pelos próximos meses e que ficasse associado à minha nova gestação.
Acabei seduzida pela delicadeza e pelo cheiro bom que têm os livros da coleção "Em busca do tempo perdido", do Proust, que ganhei de presente do meu marido e estava aguardando um momento especial para começar a ler. "Esse é o momento especial que eu esperava", pensei. Fui pra cama, ajeitei meus travesseiros e me pus a ler "O Caminho de Swann".
À primeira frase cai no encantamento de Proust, do qual tanto ouvi falar, mas ainda não havia experimentado. É mesmo como que um encantamento a forma como ele nos faz deslizar para dentro do seu mundo, como quando nos deixamos levar por uma promessa de sonho bom numa noite chuvosa.
Poucos minutos depois, estava eu diante de um parágrafo que remetia à famosíssima relação de Proust com a mãe, relação essa, comentada na maioria dos cursos e palestras que se faz sobre o autor:
"Ao subir para me deitar, meu consolo único era que mamãe fosse me beijar quando já estivesse na cama. Mas durava tão pouco isso, e ela descia tão depressa, que o momento em que a ouvia subir, e depois quando ela passava pelo corredor de porta dupla o ruído ligeiro de seu vestido de jardim, de musselina azul, com pequenos tirantes de palha trançada, era um momento doloroso. Anunciava o que ia ocorrer a seguir, quando ela me teria deixado, quando voltasse a descer. De modo que essas boas-noites que eu amava tanto, chegava a desejar que viessem o mais tarde possível, para que se prolongasse o tempo de espera em que minha mãe ainda não chegara".
Fiquei comovida com o sofrimento do menino, de saúde delicada, que, pelo que consta em sua biografia, tinha uma paixão doentia pela mãe.
Lembrei-me do meu menino que dormia no quarto ao lado, imaginando se ele sentia algo minimamente parecido, quando à noite eu lhe ajeito os lençóis, lhe beijo a face rosada e digo: "Boa noite, filho".
A esse pensamento, minhas conjecturas foram se desdobrando e logo o centro da minha emoção era a figura solitária e triste do meu irmão - que tantas vezes dormiu nas ruas, sem ninguém por perto, sem um beijo de boa noite - sem o acalanto da voz da mãe.
Outro dia, conversando com uma assistente social que trabalha com moradores de rua, ela me contou que a maioria dessa população, quando tem um problema de saúde, vai procurar auxílio na Santa Casa de Misericórdia, onde são muito bem tratados.
A razão da procura - e da recepção calorosa que recebem - me contou ela, é que muitos deles são conhecidos das Irmãs da Santa Casa desde que eram bebês.
Entre os moradores de rua de São Paulo, uma parcela é proveniente da Roda dos Enjeitados, que funcionava antigamente nas portas da Santa Casa.
Na época, ao invés de abandonarem seus filhos em latas de lixo, como é comum hoje em dia, as mães que não tinham condições de criá-los os entregavam à roda da Santa Casa - uma espécie de portinhola giratória, pela qual o bebê era mandado para dentro sem que as Irmãs vissem sequer o rosto de quem os deixara ali.
Um ano e meio mais ou menos antes de morrer, meu irmão teve tuberculose. Soubemos do seu paradeiro por uma pessoa da Santa Casa, que nos ligou avisando que ele lá estava, internado. Uma notícia que nos chegava, como sempre, depois de um longo período em que ele estivera desaparecido.
Fomos lá, minha irmã e eu, com nossos corações apertados, imaginando encontrá-lo abatido e infeliz. Lembro-me da angústia experimentada no trajeto, na passagem pelos corredores imensos, com altos pilares e ladrilho desenhado.
E lembro-me, ainda mais nitidamente, do semblante de paz e tranqüilidade que encontramos estampado no rosto do meu irmão, de sua quase felicidade ao ouvir da boca de um médico, atencioso e interessado, que ele teria de permanecer internado, por mais um ou dois dias, antes de ir para casa, onde teria de ficar de repouso e sob medicação controlada, durante seis meses.
De repente, lendo Proust, todos esses acontecimentos e lembranças desencontradas ganharam um sentido para mim. Como ele próprio dizia, "Talvez a imobilidade das coisas ao nosso redor lhes seja imposta pela nossa certeza de que tais coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade do nosso pensamento em relação a elas".
Meu irmão sempre se sentiu rejeitado por minha mãe, com ou sem razão, sentia-se preterido pelo mais velho que era o centro de todas as atenções.
Penso que ao decidir viver nas ruas, ele se identificou com seus pares, e talvez consciente ou inconscientemente, descobriu que na Santa Casa encontraria uma espécie de derivado de amor de mãe. Como alguém já disse, a atenção é a primeira forma de amor.
É certo que lá ele não receberia beijos de boa noite afetuosos e quentes, mas talvez lhe bastasse um sincero: "Procure descansar e amanhã você estará melhor". Como dizia mestre Guimarães: "Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura".
O que penso e digo e sei é que a literatura é um vasto mundo de saber. De saber de si e dos outros. Li pouco mais de vinte páginas do "Caminho de Swann", mas foram suficientes para que eu despertasse para o sentido oculto de muita coisa. Outro deles: Não adianta querer confinar nossos mortos no passado.
"Acho bem razoável a crença céltica de que as almas das pessoas que perdemos se mantêm cativas em algum ser inferior, um animal, um vegetal, uma coisa inanimada, e de fato perdidas para nós até o dia, que para muitos não chega jamais, em que ocorre de passarmos perto da árvore ou entrarmos na posse do objeto que é sua prisão. Então elas palpitam, nos chamam, e tão logo as tenhamos reconhecido o encanto se quebra. Libertas por nós, elas venceram a morte e voltam a viver conosco".
publicado por Simone Paulino em 6:04 PM Comments:
Quarta-feira, Fevereiro 23, 2005
CRÔNICAS EXTEMPORÂNEAS
Hoje uma amiga me escreveu, dizendo que num dos seus raros momentos de ócio, resolveu ler uns textos meus na internet.
Depois de alguns cliques, disse ela, encontrou uma crônica minha que lhe pareceu bastante atual por remeter ao assassinato da Irmã Dorothy e às intermináveis disputas pela posse das terras em nosso país.
Como acabo de saber que o site em que foi publicado o texto sairá do ar, copio-o abaixo, para que essas palavras escritas ao vento não se percam no ar.
Lênin, João Pedro Stedile e o golfe dos endinheirados
Era sexta-feira, primeiro dia útil do ano de 2004. Cansados da chuva teimosa que prendia todos nós dentro da casa no sítio, decidimos passar aquele dia, quase feriado, em São Paulo.
Pensávamos, meu marido e eu, em trabalhar. Resolver pendências que ficaram em suspenso por causa do corre-corre de final de ano. Mas ao chegar à cidade, decidimos aproveitar a liberdade rara de estar em casa sem criança por perto, já que nosso filho Gabriel ficara no sítio com as tias.
Assim vimos correr as horas, enquanto consultávamos a caixa postal do telefone, verificávamos os e-mails e líamos os jornais que ficaram acumulados ao pé da porta durante o período em que estivéramos fora.
Quando nos demos conta, já passara das duas. A tarde modorrenta convidava a um passeio, como se a alma reclamasse um pouco de vida metropolitana, depois de dias de molho numa casa cercada de árvores por todos os lados.
Combinamos almoçar na Paulista e depois ver um filme no Espaço Unibanco. Aproveitar que a cidade ainda estava meio vazia, o trânsito fácil, como gostaríamos que fosse em todos os dias do ano.
Ele sugeriu que assistíssemos "Adeus, Lênin!", que, segundo vinham dizendo, era um dos favoritos à indicação para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2003.
Torci um pouco o nariz inicialmente: "Filme alemão" Eu estava pensando em algo mais leve para um começo de anos, mas topei, apostando numa boa surpresa.
Já na fila do cinema, intuí que havíamos acertado na escolha. Logo à nossa frente, estava João Pedro Stedile, um dos líderes do MST. Calça jeans sem marca. Camisa de flanela cinza. Os cabelos grisalhos e ralos penteados para trás. Aspecto de quem saíra do banho há pouco.
Fiquei imaginando a rotina daquele homem, sua luta por um país mais justo, sua briga por uma divisão mais justa da nossa terra, interrogando-o em silêncio sobre o que lhe movia. Analisei por um instante o sobrenome. Seria alemão? Entrei na sala logo depois dele, mas assim que a tela se iluminou, me esqueci da sua presença.
"Adeus, Lênin" conta a história de uma mulher politicamente engajada ao regime comunista na Alemanha Oriental que entra em coma dias antes da queda do muro de Berlim.
Depois de oito meses na cama do hospital, ela desperta num país completamente diferente daquele em que vivera até então.
Preocupado com o choque que ela sofreria ao ver os ideais que moviam sua militância reduzidos a pó, o filho dela resolve esconder da mãe o que se passara, recriando, entre as quatro paredes do quarto em que ela ficaria, uma realidade já morta.
Logo somos fisgados pelas peripécias do rapaz para criar noticiários fictícios, resgatar comportamentos que se evaporaram como a poeira produzida pela queda do muro. Remontar o cenário destruído pelas mudanças políticas do país.
Impossível não nos lembrarmos do "Show de Truman" e de pensarmos o quanto qualquer realidade pode ser maquiada, manipulada com algumas câmeras de TV e truques de efeitos especiais. De como é fácil sermos enganados por uma verdade aparente!
Saímos do cinema discutindo o filme, nos sentindo recompensados e satisfeitos, dividindo nossas impressões, refletindo sobre os sentidos ocultos. Mas aquela experiência voltaria mais fortemente à minha cabeça no dia seguinte, no nosso caminho de retorno ao sítio.
Moramos na região da Vila Mariana e nosso destino era Taiaçupeba, próximo a Mogi das Cruzes. Mas a sugestão de um amigo e a curiosidade do meu marido em conhecer até as regiões menos atraentes da São Paulo pela qual ele é apaixonado, nos levaram a fazer um caminho diferente.
Ao invés de pegarmos a Rodovia Ayrton Sena, seguiríamos a rota do trem, margeando a linha que corta toda a Zona Leste. E assim fomos: Belém, Tatuapé, Carrão, Penha, Vila Matilde, Itaquera, Guaianases, Poá, Calmon Viana, Ferraz de Vasconcelos, Suzano, Mogi das Cruzes.
A maioria destas localidades eu já conhecia, pois nasci em Guaianases, que, descobri depois, é um dos piores IDHs (Índices de Desenvolvimento Humano) de São Paulo.
A cada estação, as lembranças da minha infância iam chegando, meio fragmentadas, empoeiradas pelo tempo. Mas não demorou muito, estava eu de olhos cheios de lágrima, condoída com a miséria daquelas pessoas, daquele mundo sem perspectivas no qual eu também vivi, pensando em como estavam distantes da São Paulo de 450 anos, festejada nas floreiras da Avenida Paulista e no chafariz do Parque do Ibirapuera.
Pelo caminho fui identificando uma certa "lógica" nos bolsões de miséria. De um lado da linha, geralmente o lado mais baixo, à esquerda de quem segue da Zona Sul para a Zona Leste, estão as vilas mais pobres, com esgotos a céu aberto, pontes de madeira sobre córregos podres, muito lixo e construções em áreas de risco. Do outro lado, à direita, geralmente áreas mais altas, estão os pontos comerciais, os bancos, as delegacias e igrejas. "Quem está abaixo da linha está cruelmente instalado também abaixo da linha de pobreza", pensei.
Minha tristeza deveria se esvair poucos quilômetros à frente, quando nos desviamos do rumo da linha e pegamos uma rodovia curta, que começa em Mogi e termina bem próximo ao sítio do meu irmão. Mais larga e bem cuidada, ela vai deixando pra trás o cenário de miséria anterior. Porém, foi nesse distanciamento que eu tive a surpresa. A visão. O assombro.
A certa altura daquela estrada, no meio do nada, se avista uma espécie de oásis. Vemos primeiro, à direita da rodovia, uma área de um verde diferente, intenso, marcante. À medida que nos deslocamos, enxergamos também vários lagos. Cristalinos. Lindos. Mais no alto, como que no centro, no topo, uma construção imponente, com ares de arquitetura grega.
Diante da minha curiosidade meio frenética, meu marido diminuiu a velocidade do carro e pude ver melhor. Logo percebi homens vestidos de branco, em contraste com o verde da grama, vislumbrados por trás de muros ladeados por plantações bem-cuidadas de bambu. Quanto mais via, mais intrigada ficava, até que passamos em frente ao portão principal e eu li a inscrição: Blue Tree Park Paradise Golf & Lake Resort.
Os homens de branco, entendi rapidamente, eram hóspedes jogando golfe! Àquela constatação, uma onda de revolta tomou conta de mim. Como podiam eles, endinheirados, estarem ali, a poucos quilômetros de tanta pobreza, jogando golfe, hospedados em instalações luxuosas, cercados de sofisticação, enquanto toda aquela população que eu deixara pra trás no caminho se afundava na lama da miséria!
E aqueles lagos? Eram tantos! Tão lindos! Quem foi que disse que pertenciam a eles e só a eles? Não são de todos? Quem lhes deu a posse daquilo?
Demorei um pouco pra voltar a raciocinar. Consegui me acalmar. Mas jamais esquecerei o que senti! Fúria doída! Indignação! Nó na garganta! Era a injustiça em carne viva!
Naquela hora acho que entendi um pouco o que move João Pedro Stedile, os sem-terra, os sem-teto, os sem-nada. A luta deles por uma divisão mais igualitária das riquezas da nossa terra, a crença na possibilidade de construir uma sociedade menos cruel.
Soube depois, que a grama verde que recobre os campos do hotel é importada e que a maioria dos hóspedes do Blue Tree Park Paradise Golf & Lake Resort chegam ao "paraíso" de helicóptero. Não pisam de verdade o nosso chão! Não passam à margem da linha do trem! Não descem ao inferno!
publicado por Simone Paulino em 4:16 PM Comments:
Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005
GESTAÇÃO
É difícil voltar quando a gente esquece de deixar a porta encostada. Pois é. Estou tentando voltar a escrever, mas as portas estão todas emperradas. Olho no calendário e faço as contas: quase três meses sem escrever uma linha - exceto as matérias encomendadas.
Sem inspiração, recorro aos livros. Penso numa frase boa do Guimarães: "Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!".
Pode ser isso. Talvez o que eu sinta seja medo. Medo de escrever e não conseguir dizer nada. Aí me lembro de uma personagem da Clarisse que dizia que tudo o que mais valia, exatamente, ela não podia contar. "Tudo o que possuo está muito fundo dentro de mim. Um dia, depois de falar enfim, ainda terei do que viver?"
Eu estou grávida. Isso posso contar. Mas jamais conseguirei pôr em palavras o que senti ontem. Deitada no tapete da sala. Pernas esticadas e mão no ventre. Senti a bolinha se formar do lado direito, pressionei com a palma da mão e perguntei: "É você, bebê?" A resposta foi imediata, como se ele (ou ela) balançasse a cabecinha e seu movimento ressoasse em mim.
Dizem que quando estamos grávidas, nos primeiros meses sobretudo, entramos numa espécie de letargia. Não são só os hormônios que nos amolecem e nos tornam sonolentas. Dizem que desaceleramos, temos vontade de dormir e calar porque o instinto nos faz querer entrar em sintonia com o estado do feto.
Sinto-me assim desde que me descobri grávida - há exatas 14 semanas e dois dias. Mas ontem algo mudou. A mesma inquietação de antes vem se formando aqui dentro. É como se o mistério da vida que sempre me perturbou, voltasse a me cutucar. Ou como se eu tivesse despertado junto com o despertar do bebê.
Ainda emocionada com a experiência de minutos antes, ouvi uma pergunta que ressoava da boca de um repórter ou apresentador do Fantástico. "Qual foi o momento mais feliz da sua vida?".
Lembrei-me do nascimento do meu filho Gabriel e do espanto de pousar os olhos naquele anjo saído de mim. Disse, mais pra mim do que pra ele ou para o meu marido que lia o jornal na poltrona ao lado: "O momento mais feliz na vida de uma mulher deve ser mesmo o nascimento do primeiro filho".
Meu menino, que estava com a cabecinha apoiada no meu colo, levantou a os olhinhos na direção dos meus, e orgulhoso, disse: "Eu é que sou o seu primeiro filho, né, mãe?".
"É filho", respondi acariciando seus cabelinhos de anjo e pensando na frase do Guimarães - eu acabara de descobrir uma nova qualidade de medo. Do medo de não saber como dividir meu até ontem indivizível amor de mãe.
publicado por Simone Paulino em 3:55 PM Comments:
Quarta-feira, Dezembro 08, 2004
A LITERATURA COMO DIREITO HUMANO
Já li muitos textos do crítico literário e ensaísta, Antonio Candido, mas nenhum deles, até hoje, me causou tanta comoção quanto o pouco conhecido "O direito à literatura".
Nesse ensaio, Candido defende a idéia de que o direito aos livros deveria ser incluído na lista dos Direitos Humanos. Por que? Porque ele considera que a literatura seja um fator de humanização indispensável, que confirma o homem na sua humanidade e tem papel formador na personalidade. Diz Candido:
"Entendo aqui por humanização (já que tenho falado tanto nela) o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade e o semelhante".
É claro que concordo plenamente, palavra por palavra, com tudo o que Antonio Candido diz, sobretudo porque me considero exemplo do poder transformador que a literatura pode exercer numa vida.
E para usar novamente as palavras de Candido, considero a literatura como um Direito Humano "porque pensar em Direitos Humanos tem um pressuposto: reconhecer que aquilo que consideramos indispensável para nós é também indispensável para o próximo".
Nem todo mundo sabe, mas era uma espécie de caverna a casa em que passei a infância. Fincada num cisma de terra que parecia perdido entre o ser e o nada. Escuro profundo, no qual só uma tênue luz de lamparina nos guiava durante a noite. Noites longas, sempre longas. Vastidão de escuros a alimentar medos. Penumbra que ia do chão batido, aos olhos da mãe: a terra das ruas enegrecendo ao despedir do sol, e os vultos cinzentos da tristeza a remar naqueles olhos sempre rasos d'água.
Vivi muito tempo contemplando aquela sombra de vida que se projetava nas paredes tortas da casa tosca em que morávamos. Contornos distorcidos do mundo real de uma criança - a miséria espreitando por todos os cantos e pelas frestas dos tijolos mal entrelaçados.
No princípio, Deus me deu o céu e a terra, eu sei. A terra, porém, estava sem forma e vazia. Havia trevas sobre a face do abismo. Até que Deus disse: Haja Luz; e houve luz. E a luz vinha do topo. Porque mesmo de dentro do abismo, era possível vislumbrar um topo. Paisagem avistável apenas para quem tivesse por hábito olhar para cima. E era lá, no topo, que ficava a escola, de onde chegaram pra mim os primeiros raios da luz do conhecimento.
E foi como no momento primeiro da criação, como se Deus tivesse visto que a luz era boa e fizesse a separação entre a luz e as trevas. Chamou Deus à luz, dia, e às trevas, noite. Durante o dia, meu nome ecoava como uma música que escapasse dos lábios da professora Ivani. Acho que ali é que nasci de verdade. O antes foi só um gestar demorado.
Depois, dos desenhos e colagens em papel crepom, nasceu o verbo. E o verbo era a verdade, escrita em vermelho, nas bordas superiores dos cadernos, em letra delicada e precisa: Ótimo! Parabéns! Lindo! Excelente! Gostei Muito!
O verbo estava posto no meu mundo, e o meu mundo foi criado por intermédio dele. Eu caprichava na letra, ajustava bem o lápis à folha, apagava os erros com cuidado. Era preciso acertar, porque algo me dizia que se eu errasse, se eu errasse a luz podia se apagar, como a chama da lamparina ia rareando à noite, até se desfazer deixando apenas um cheiro negro e viscoso no ar.
Mas a maior transformação começou no dia em que ganhei minha primeira cartilha "Caminho Suave". Basta fechar os olhos, para que eu me recorde com saudade o cheiro, a textura e as cores daquele livro que tanto desejo despertou em mim. Suas figuras mágicas - cada uma representando uma letra do alfabeto - faziam com que meu coração fosse tomado por uma alegria calma e quente, como eu jamais experimentaria em outra ocasião.
Depois que a tive nas mãos pela primeira vez, nunca mais fui a mesma. Não me separava dela por nada, não a trocava por nenhum brinquedo. Era como se adivinhasse todos os tesouros que ela escondia em si.
Depois dela, lembro-me do efeito que teve em mim a história de "Marcelo, Marmelo, Martelo". E guardo no fundo empoeirado da memória, a imagem e a alma de uma menina loura, muito bonita, que atendia pelo nome de Poliana.
Quando a leitura entrou em minha vida, ganhei outro mundo para viver, cheio de cores, cheiros e sensações nunca antes experimentadas.
Durante todos esses anos, fiz da palavra meu alimento mais essencial. Com ela cultivei meus sonhos, elaborei meus medos, filtrei minhas dores, ganhei meu sustento, ampliei meus horizontes, amei mais e fui amada.
Por tudo isso, hoje - tantos anos e livros depois - posso dizer com todas as letras: Bem-aventurados aqueles que lêem e ouvem o canto mudo das palavras.
publicado por Simone Paulino em 2:36 PM Comments:
Sexta-feira, Novembro 26, 2004
LEMBRANÇAS ENCOBRIDORAS
Há tempos que desisti de ler apenas um livro por vez. Tento, é bem verdade, mas sou vencida por obras que vão me atravessando o caminho, como se estivessem sempre de tocaia, esperando apenas um breve desviar do meu olhar de dentro.
Às vezes me repreendo por isso, noutras dou graças a essa inconstância.
Estou lendo "Grande Sertão Veredas", livro suficientemente denso e envolvente para me absorver por completo. Mas nesse meio-tempo assisti a uma aula na USP, sobre o Rosa, ministrada pela professora Adélia Bezerra de Menezes.
Fiquei encantada com o repertório dela e fui garimpar nas prateleiras de uma livraria um pouco mais daquele saber. Não encontrei o livro dela sobre o Guimarães, mas outro: "Figuras do Feminino na Canção de Chico Buarque".
Amar o Chico é algo quase redundante para quase toda mulher. Então pulo a justificativa que poderia dar sobre a compra que fiz.
O livro da Adélia faz um estudo temático das letras que modulam a figura do feminino na obra do Chico, mas sem a pretensão de definir o indefinível.
Logo no primeiro parágrafo, ela esclarece: "O que é a mulher? - a pergunta irrespondida que se fez Freud, em carta a Marie Bonaparte, ressoa singularmente na alta poesia de Chico Buarque. Não que se pretenda que a resposta tenha sido dada, pois, como já cantou Caetano Veloso "ninguém sabe mesmo o que quer uma mulher".
Fui devorando o livro rapidamente, sobretudo porque, além do texto fluido e preciso, ele traz trechos de músicas do Chico, que a gente canta involuntariamente enquanto lê, além de belíssimas ilustrações de mulheres, representadas por artistas como Candido Portinari, Alfredo Volpi e Ismael Néri.
Tudo isso redunda numa leitura envolvente, rápida e leve, o que por si só já seria uma recompensa e tanto. Mas havia lá pela página 106 uma surpresa para mim.
Quando eu era pequena, ouvia muita música no rádio, rádio AM, sobretudo. Na época não havia FM, ou o rádio que tínhamos em casa não sintonizava aquelas freqüências.
Por isso sempre ouvi muita música popular brasileira. E é daquele tempo meu fascínio por uma delas, que eu pensava ser de autoria da Maria Bethânia - porque era ela quem cantava no rádio.
O fato é que eu amava aquela música. Mesmo menina ainda, sem alcançar o significado da letra, sentia uma emoção profunda e boa, daquelas que a gente não sabe de onde vem, algo que se assemelha a uma saudade indefinida e vaga.
Pois bem. A letra da música, que é do Chico, e não da Bethânia, é analisada no livro da Adélia, e me é inescapável realizar o desejo de reproduzi-la agora, nas teclas do meu computador:
O primeiro me chegou
Como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia
Trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio
Me chamava de rainha
Me encontrou tão desarmada
Que tocou meu coração
Mas não me negava nada
E assustada eu disse não.
O segundo me chegou
Como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar
Indagou o meu passado
E cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta
Me chamava de perdida
Me encontrou tão desarmada
Que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada
E assustada eu disse não.
O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração.
O que descobri, na leitura, é que o meu fascínio por essa música tinha uma forte razão de ser. A melodia ressoava em mim como o que Freud chamou de "lembrança encobridora", pois ocultava um outro sentimento, mais antigo e longínquo.
A canção do Chico, agora sei, foi baseada na mesma melodia de uma cantiga de roda que minha mãe cantava para mim quando eu era criança, quando escurecia, e só se ouvia o latido insistente de cachorros insones ao longe, latidos que me assustavam, e que ela tentava ocultar, cantarolando, na sua voz cansada e triste.
Terezinha de Jesus
De uma queda foi ao chão
Acudiram três cavalheiros
Todos três chapéu na mão
O primeiro foi seu pai
O segundo seu irmão
O terceiro foi aquele
Que a Tereza deu a mão
Quanta laranja derramada
Quanto limão pelo chão
Quanto sangue derramado
Dentro do meu coração
Entre tantas outras coisas, o que o livro da Adélia se propôs e cumpriu foi mostrar como o Chico deu conta de abarcar tamanha diversidade de perfis femininos em suas letras, e chegar tão inquietadoramente perto do eu feminino.
Mas a mim, o que mais impressionou e comoveu, foi encontrar entre Beatriz, Madalena, Angélica, Ana, Nancy, Bárbara, Januária, Joana, Iracema e Geni, alguns fragmentos de uma certa Dona Alice.
Criatura irmanada às sofredoras "Mulheres de Atenas", também cantadas por Chico. Uma daquelas jovens viúvas marcadas... que não têm gosto ou vontade... têm medo apenas....
publicado por Simone Paulino em 12:12 AM Comments:
Domingo, Novembro 21, 2004
SOBRE MENINOS E LIVROS II
Em um texto de 1919, o escritor Guerra Junqueiro, dizia: "A alma duma criança é uma gota de leite com um raio de luz. Transformar esse lampejo numa aurora, eis o problema. A mão brutal do pedagogo áspero, tocando nessa alma, é como se tocasse numa rosa: enodoa-a. Para educar as crianças é necessário amá-las. As escolas devem ser o prolongamento dos berços. O leite é o alimento do berço, o livro, o alimento da escola".
Esses dias ganhou destaque nos principais meios de comunicação do país a história de um menino de sete anos, que foi posto de castigo pela professora atrás da porta de uma sala de aula, e esquecido lá por mais de quatro horas.
O garoto só foi encontrado quando a mãe, dando por sua falta, decidiu procurá-lo na escola, cujas aulas já tinham terminado.
Só de ler esse relato curto já ficamos suficientemente indignados com a atitude da tal professora. Há muito que esse método pedagógico foi banido das escolas minimamente atualizadas. A prática é condenada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Dificilmente um ato como esse poderia suscitar qualquer reação em defesa da professora.
Mas o que mais me chocou e comoveu foi o motivo pelo qual o garoto foi colocado de castigo. O menino foi castigado não por ter desrespeitado os colegas ou a professora, por ter atrapalhado o andamento das atividades, por não ter feito a tarefa ou coisa que o valha - transgressões que de maneira alguma justificariam a violência a que foi submetido - mas talvez tornasse a história mais fácil de engolir para quem não está emocionalmente envolvido com o fato.
Porém, o menino não fez nada disso. Ele apenas esqueceu de devolver um livro à biblioteca. Eis sua única transgressão: esqueceu de devolver um livro que pegara emprestado na biblioteca da escola! Esse, para mim, é o detalhe mais absurdo e inaceitável de toda a história!
Fiquei pensando nesse menino, tentando imaginar que livro seria esse que ele não devolveu à professora. Tratava-se de uma biblioteca de escola pública, de Nova Odessa, no interior de São Paulo. E sabemos o quanto as bibliotecas públicas são precárias. Sabemos o quanto é difícil cultivar o hábito da leitura em crianças que não têm acesso a livros bons e belamente ilustrados - privilégio de pouquíssimas crianças em nosso país.
Refleti ainda como ele pôde ter suportado ficar quatro horas, sozinho, mudo, atrás de uma porta, sem se rebelar contra o castigo. Lembrei-me então de um ensinamento de Santo Agostinho, que eu li no livro "Uma história da leitura", do argentino Alberto Manguel. Dizia Santo Agostinho:
"Sempre que leres um livro e encontrares frases maravilhosas que te instiguem ou deleitem teu coração, não confies apenas no poder de tua inteligência, mas força-te a aprendê-las de cor e torná-las familiares meditando sobre elas, de tal forma que ao surgir um caso urgente de aflição, terás sempre o remédio pronto, como se estivesse escrito em tua mente".
No mesmo livro, Manguel nos relata o caso de um professor seu, cujo pai, morto num campo de concentração, fora um intelectual que sabia muitos clássicos de cor e que, no período em que ficou confinado pelos nazistas, atuava como uma espécie de biblioteca viva para seus companheiros, recitando, de coração, Virgílio ou Eurípedes.
Torço para que o menino de Nova Odessa seja um embrião de um amante da literatura dessa estirpe. Alguém que ame tanto os livros, a ponto de esquecer (ou se negar) a devolvê-los nas datas estipuladas, querendo prolongar ao máximo o contato com aquele objeto mágico. Alguém de imaginação fecunda a ponto de suportar quatro horas de castigo, viajando por mundos encantados onde não existem professoras que agem como carrascos de campos de concentração.
Em um de seus ensaios mais belos, Virginia Woolf diz: "Sonhei por vezes que quando raiar o Dia do Juízo Final e os grandes conquistadores, juízes e homens de estado vierem receber suas recompensas - suas coroas, seus lauréis, seus nomes gravados indeléveis sobre o mármore imperecível - o Todo-Poderoso se voltará para Pedro e dirá, não sem certa inveja, ao ver-nos chegar com nossos livros sob os braços: Veja, Pedro: estes não precisam de recompensa. Não temos aqui nada para dar-lhes. Eles amavam ler.".
publicado por Simone Paulino em 12:18 PM Comments:
Sexta-feira, Novembro 12, 2004
CACOS PARA UM VITRAL
Hoje acordei com uma vontade insistente de botar ordem no meu mundo interior. Expressão rasa essa. E que prepotência a minha: Meu mundo interior! Como se algo do que está dentro da gente nos pertencesse de verdade.
Sou um vão apenas, ocupado por pensamentos emprestados, sedimentados ao longo da vida por pura inércia. Nada meu de fato. Um Frankstein de valores e gostos.
Não consegui definir quem sou eu (eu?) e olha que já passei da adolescência faz tempo. Ainda estou descobrindo o mundo e colecionando coisas: um "retalho de pano bom" aqui, um medo bobo acolá, uma nova velha cantora de jazz na loja de discos, uma quase crença na teoria das idéias do Platão.
Sou planta de superfície, fincada em solo arenoso. Não significo. Deslizo o tempo todo. Signivou. Signivolto. Não permaneço.
Está ficando com um tom insólito esse texto. Uma psicografia parece, ditada pelo meu próprio e pobre espírito.
Estou lendo Adélia Prado. Que mulher incrível! Devorei três livros dela em seqüência e toda hora tenho vontade de ir lá, olhar aquela página de novo. A pergunta martelando a cabeça. Como é mesmo que ela falou dos pais? "Nossos pais adoecem e nos olham como se fossem nossos filhos".
Isso é que é verve. Verve não. Essa acho que ela não admitiria. Sepultava sem dó nem piedade no vale dos vocábulos mortos. Disse isso no último livro: "Manuscritos de Felipa". Comprei escondido esse. Atitude típica de viciados. Três livros num final de semana "é demais para uma mulher".
Mas como ia contando, comprei escondido o livro dela. Achei que meu marido não ia entender, não pelo dinheiro, que é nosso, mas pela compulsão, que é só minha.
Passei no caixa enquanto ele bisbilhotava a seção de CDs com meu filho. Já li o livro inteiro e ele nem viu. Mas vou ter de contar a ele. Já estou contando na verdade. Ele lê todos os meus escritos.
Olha eu de novo imitando a Adélia. Escritos e manuscritos estão quase ali. Meu professor chamaria isso de "plágio criativo". Que seja então. Ele diz também que nós, escritores, precisamos encontrar nossa família literária.
"Começamos imitando nossos 'parentes' até nos transformarmos numa imitação de nós mesmos". Acho então que esse relato é a prova de que encontrei mais uma irmã e me olho no espelho querendo refletir a imagem dela. Ou seriam as palavras dela?
Bom me sentir assim, bom escrever assim, sem amarras, sem script, só com as mãos e o coração. Não ensaiei nada. Peguei as palavras no palpite, não deu errado porque só falo do que dói e grito todo mundo entende.
Bonito não é? Não coloquei aspas por molecagem. É da Adélia essa última frase também. Quem sabe se continuar lendo os textos dela um dia ainda chego lá, ou melhor, ali, ali pertinho, na mesma estante da livraria, quase na divisa com Divinópolis.
publicado por Simone Paulino em 12:02 AM Comments:
Quinta-feira, Novembro 04, 2004
SOBRE MENINOS E LIVROS
Quando escreveu "Finnegans Wake", James Joyce disse que os críticos passariam um século tentando entender seu livro, uma obra experimental, quase ilegível, que para muitos, guarda uma espécie de chave mestra, sem a qual, dificilmente seria possível compreendê-la.
Depois de enfrentar a empreitada homérica de traduzir o intraduzível livro para o português, de 1999 a 2003, em nada menos que 1701 páginas, o crítico e escritor Donaldo Schüller acaba de lançar uma adaptação infanto-juvenil da obra.
O "Finnício Riovém", diz Schüller em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, "explora a criança em nós, não com literatura infantil distanciando as crianças do mundo adulto, mas enfatizando o lado infantil dos maiores, sobretudo no uso de jogos de palavras".
Na transcriação de Schüller, o velho milionário é um "velhonário", o pirata biruta, um "piruta"; o palácio com pulgas, um "pulgácio". Diz um trecho: "Ele sonhou muito alto. Vivia ébrio de grandifícios. Ele quis construir solzinho".
Lendo os pequenos trechos citados na matéria, lembrei-me imediatamente do primeiro livro que li na infância: "Marcelo, Marmelo, Martelo", da Ruth Rocha.
Para quem não lembra, vale recordar, o livro conta a história de um menino inteligente e curioso, que vivia questionando os nomes que os adultos davam às coisas.
A certa altura, Marcelo pergunta: "Por que é que esse tal de latim não botou na mesa nome de cadeira, na cadeira nome de parede, e na parede nome de bacalhau?"
Como seu pai não achasse uma resposta à altura, o menino decide, por conta própria, mudar o nome das coisas que o rodeiam, de tal modo que travesseiro vira cabeceiro; cadeira, sentador; casa, moradeira, e assim por diante.
"Marcelo, Marmelo, Martelo" é também um dos primeiros livros que comprei para o meu filho, Gabriel, um menino inteligente e curioso que também vive questionando tudo o que está ao seu redor e que, na bela dança que vai ensaiando com as palavras, vive a criar suas expressões inusitadas e seus neologismos.
Semana passada, olhando o pai ajeitar a gravata em frente ao espelho, ele virou e disse: "Pai, eu tô achando você meio narigudinho", e logo emendou: "Não, na verdade (e a expressão "na verdade" faz parte do vocabulário dele) a mamãe é que é narigudinha. Você é narigumédio".
Nos divertimos muito com a invencionice dele e cheguei a dizer que devia registrar essas falas, para não esquecê-las depois.
Contando isso a amigos, todos pais de outras crianças da mesma idade, lembrei-me então de outra pérola que certa vez ele me disse, referindo-se justamente ao livro da Ruth Rocha: "Mãe, sabia que esse é o livro que eu mais me pertenço?".
Na hora achei engraçado, e só. Mas agora que escrevo, penso que por ter sido meu primeiro livro, "Marcelo, Marmelo, Martelo" talvez seja de fato o livro a que meu filho mais se pertence. O que está mais entranhado em seu pequeno ser.
Fiquei curiosa para conhecer outros trechos da versão infantil de "Finnegans Wake". Vou comprar e ler para o Gabriel. E não me surpreenderei se ele encontrar a chave e conseguir compreendê-lo melhor que eu.
Quem sabe o que Joyce quis dizer quando falou que os críticos demorariam mais de um século para entendê-lo não fosse justamente isso: Que os críticos demorariam mais de um século para se livrarem do seu "suposto saber", a ponto de serem capazes de se lançar à aventura do livro como a criança que explora a encantada floresta da linguagem.
Como contei no post anterior, estou lendo Guimarães Rosa, e venho encontrando pelo Sertão várias frases de uma poesia de tal modo indizível que devem ser tão intraduzíveis para outras línguas quanto os experimentos lingüísticos de Joyce.
Como uma criança, vou catando pedrinhas naquele chão, movida exclusivamente pela luz que escapam delas e alumiam meu caminho. Aos poucos, vou sonhando muito alto. Monto um poema solzinha. Estou ébria de grandifícios. E já adivinho que talvez por isso, esse passe a ser o livro que eu mais me pertenço:
Cactos do sertão
Viver é um descuido prosseguido
O corpo não traslada, mas muito sabe,
Adivinha se não entende.
Amor vem de amor.
O amor, já de si, é algum arrependimento.
Eu queria decifrar as coisas que são importantes.
Eu me lembro das coisas,
Antes delas acontecerem...
Eu atravesso as coisas -
E no meio da travessia não vejo!
Só estava era entretido
Na idéia dos lugares de saída e de chegada.
Digo: o real não está na saída nem na chegada:
Ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.
Diz-se que tem saudade de idéia
E saudade de coração...
O senhor sabe?
Já tenteou sofrido o ar que é saudade?
Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.
publicado por Simone Paulino em 4:38 PM Comments:
Sexta-feira, Outubro 29, 2004
REDESCOBERTA DA LITERATURA BRASILEIRA
Sob o título de "Paixões Impressas", escrevi em 2001 um texto no qual relatava os caminhos literários que percorrera até então, começando por minha primeira cartilha, "Caminho Suave", com a qual aprendi a ler.
A certa altura do percurso, dediquei algumas linhas da minha odisséia às leituras de Machado de Assis.
Contava no texto que minha paixão pelo bruxo do Cosme Velho havia sido platônica. Tal afirmação, justificava eu, se dava pelo fato de nunca ter possuído os livros de Machado. Todos aqueles que eu lera se enquadravam na horrenda alcunha de "leitura obrigatória para o vestibular" e, sem recursos para comprá-los, eu os tomava de empréstimo à biblioteca.
Depois de ler, tinha de devolvê-los às prateleiras escuras e suportar a distância forçada. É desse tempo meu primeiro contato com "Memórias Póstumas de Brás Cubas", "Dom Casmurro" e "Quincas Borba".
Passado o vestibular, a ingenuidade da juventude me fez crer que Machado de Assis era - me perdoem o lugar comum - página virada. Na época eu não tinha a mínima idéia do manancial que era Machado, de sua amplitude e seus desvãos.
Esse equívoco me privou durante anos da experiência de ler outras obras-primas dele, sobretudo seus contos, tão belos quanto inalcançáveis.
Só perto de me tornar uma balzaquiana, já me aventurando pelo terreno da ficção, e desfrutando de alguma melhora no poder aquisitivo, que me permitia freqüentar livrarias, fui ter novamente com minha antiga paixão platônica.
Comprei uma pequena antologia de contos. Lembro-me que o primeiro que li foi "Conto de Escola" e fui tomada por um assombro, despertando novamente para a grandiosidade de Machado.
Foi assim que a pequena antologia de contos machadianos se duplicou. E foi numa das topadas que dei com "a outra", que uma pérola se colocou em meu caminho, quando li, pela primeira vez, o conto "O espelho".
Era eu então o que em crítica literária se convencionou chamar de leitora ingênua. Li, não em busca de um fim específico, ou com os olhos críticos e o distanciamento de quem se propõe a dialogar com o texto.
Li porque a obra estava ao alcance de minhas mãos, num daqueles momentos em que a gente olha em redor e, não encontrando nada de interessante no mundo sensível que nos rodeia, voltamo-nos à ficção em busca de algo mais real e palpável.
A edição, da série "Nossos Clássicos", da Agir Editora, deve ter contribuído para despertar meu interesse. Pequena, quase anatômica, impressa em papel branco, de gramatura aprazível, era o que se podia chamar de uma edição justa.
Justa à magnitude do autor, cujo trabalho foi ali reproduzido com respeito e esmero, preservando-se o texto integral sem os erros grosseiros, que vez ou outra aparecem em edições mal-cuidadas.
Justa ainda, por se tratar de uma edição de qualidade, porém barata, quando comparada a outras tantas, tratadas como objetos de arte, cujo preço as coloca ainda mais distante do seu fim essencial: o leitor.
Nas palavras de Drummond, o livrinho era como que "a essência de uma biblioteca, viva, atuante, companheira da gente".
Pois bem. Alguém já disse (e eu mesma vivo a repetir) que não somos nós que escolhemos os livros, mas eles, os livros, é que nos escolhem para lê-los - a idéia de haver um livro qualquer esperando por mim, num estado de paciente resignação na estante de uma livraria, sempre me inquietou.
O fato é que, naquele momento, eu me sentia escolhida por Machado, especialmente pelo conto "O espelho", que, duas semanas depois, me atravessou o caminho novamente.
Discutíamos no curso de literatura e psicanálise o narcisismo e eis que a professora sugere-nos a leitura e análise do conto machadiano, síntese perfeita de muitos dos conceitos desenvolvidos por Freud acerca do assunto. E lá estava eu novamente diante do espelho.
Só esse episódio isolado já me pareceu por si significativo. Seria o conto um desejo reprimido que voltava reclamando sua realização em minha vida? Partimos para a análise do conto, o qual foi se multiplicando em significados, à medida que a dimensão psicanalítica do texto se desvendava.
Desde então, me encalacrei no universo de Machado. Li vários de seus contos, reli "Dom Casmurro", numa edição belíssima da Martins Fontes, e o que percebi é que agora, com uma certa bagagem que outras leituras me deram, sou cada vez mais tomada de espanto diante dos textos de Machado.
Quando consegui entrar no mundo labiríntico de Borges, cai de encanto por ele, sobretudo por ir compreendendo aos poucos que, como diz um amigo, a própria literatura é a personagem principal dele.
Fiquei pensando esses dias que posso e devo amar Machado tanto quanto Borges, já que além de ter construído "personagens humanas" extraordinárias, em muitos momentos, como fez Borges, Machado faz da literatura um seu personagem.
Leia-se "A cartomante" procurando o fio de Hamlet; leia-se "Dom Casmuro", rastreando os vestígios de "Otelo", leia-se "O espelho", buscando nele o reflexo de Platão.
Leia-se todos os seus outros textos para mim ainda indivisos e estará iniciada a aventura, o descobrir das tramas dessa aranha, que vai babando seu discurso, e nos enredando no centro dele.
Redescobri Machado. Estou reconcialiada com Clarice. Ontem comecei a ler Guimarães.
Passo-a-passo já vou espreitanto miragens no Sertão. Fraseados tão lindos que vão doendo fundo na vista da gente:
"Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando."
publicado por Simone Paulino em 12:20 PM Comments:
Sexta-feira, Outubro 15, 2004
PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM
Estou lendo Clarice Lispector. Clarice Lispector. O nome é em si um estilhaço. Sonoridade pontiaguda que penetra fundo no ouvido-alma da gente.
Clarice. Clarice é perfurante. Entranha-se no reino das palavras e diz soberba: Tenho as chaves!
Clarice é quase um verbo. Se eu Clarice. Se tu Clarices. Como seria o mundo se todos nós Clarícemos?
Mas Clarice está em mim de um modo imperfeito. Se eu Clarice era só uma possibilidade remota que não se completou. Então trago Clarice para o presente e ela me atinge qual lâmina afiada e transforma tudo à minha volta em fragmento.
Não consigo ler seus textos inteiros. Por isso, vou aos poucos. Recolho aqui e ali uma parte. Clarice, metonímia pura.
Perguntei a Clarice o que poderia ser a vida após a morte. Clarice, escorregadia, me inquiriu: Que importa o futuro do pretérito? O instante, só o instante conta. Entenda, enquanto é presente! Esse mesmo, translúcido, que ao pensares nele já te escapa. Agarra-te a ele. Prenda-o em ti. É o que tens por hora, e é muito, creia-me.
Pedi uma resposta e Clarice me devolveu perguntas. Será isso? Viver, uma infinita pergunta? Um consulta interminável a um dicionário com sucessivos verbetes remissivos? De onde? Para onde? Por quê? Por quanto tempo? Tempo? Que é o tempo? Se não me perguntam o que seja o tempo, sei. Mas se me perguntam, onde a resposta? Não há respostas, meu Deus, é isso? Deus?
Tenho febre de estar viva, e ela me consome, por quê? Será a existência um eterno delírio, por quê? A chuva lavou a cidade e não refrescou meu espírito, por quê? Tenho uma mesa farta e sinto fome, por quê? O espelho não reflete minha alma, por quê?
Cada pergunta é um caco de Clarice que penetrou na pele porosa do meu pensamento.
As calçadas de outubro estão cobertas de flores amarelas e roxas e isso me inquieta, por quê? A morte é roxa e a vida, amarela, e a cada quarteirão elas se alternam. Sim, seria uma resposta. Mas é belo o roxo alternado com o amarelo. E há um sopro que às vezes mistura tudo numa cor indefinida e vaga. Tese, antítese, síntese. É isso, a vida?
Queria ir além, lá no mais-longe, no indescoberto rumo, bem perto do centro estreito onde nascem as palavras que fundam o mundo. Mas eu, Simone. Se eu Clarice...
publicado por Simone Paulino em 1:02 PM Comments:
Quinta-feira, Setembro 09, 2004
MITOLOGIAS
Há cerca de cinco anos, fui convidada por um amigo jornalista a participar de um grupo de estudos de mitologia grega.
Na época, não conhecia nada sobre os mitos, mas a idéia de me juntar a pessoas interessantes, lendo e discutindo livros de histórias antigas me pareceu, por si só, fascinante.
Durante um breve período, fiz parte do grupo, coordenado pelo Rui Alão, que se tornaria um dos meus melhores amigos.
Num clima bem descontraído e caloroso, fazíamos leituras compartilhadas dos mitos gregos - os outros componentes do grupo anos luz à minha frente no manejo daquelas narrativas.
De início era dificílimo entender os epítetos todos, os diversos nomes atribuídos a cada divindade, ora citadas com o nome grego, ora com o nome romano, além das variadas versões para cada história.
Confesso que em boa parte do tempo, eu vagava por imensos labirintos de significados, mas não desistia de seguir a trilha do fio de lã que eles iam deixando para traz.
Posso dizer, sem falsa modéstia, que perseverei naquele aprendizado, como que movida por uma certeza incerta de que havia um ouro antigo a ser garimpado ali.
Para além das leituras dos mitos, declinamos para o teatro grego. Foi lá que li, pela primeira vez, "Édipo Rei", de Sófocles, e "Medéia", de Eurípedes.
A partir dali, cresceu meu interesse pelo tema. Mesmo afastada do grupo, do qual saí quando engravidei do meu filho Gabriel, continuei lendo, meio desordenadamente, apanhando um significado aqui, outro acolá e sempre recorrendo ao Rui quando alguma dúvida me interrompia a caminhada.
Tempos depois, a TV Cultura promoveria um curso extraordinário de Literatura Grega Antiga, ministrado pelo professor Antonio Medina Rodrigues, um dos grandes pesquisadores do tema no Brasil, tradutor de vários livros direto do grego.
Fizemos o curso, o Rui e eu, que ainda me sentia muito insegura, diante do imenso conhecimento dele, até que, numa determinada ocasião, ele muito generosamente, me deu uma chave:
"Pra entender os gregos é preciso esquecer o conceito de ordenação do mundo que a gente tem. É tudo meio caótico de início, mas aos poucos o sentido vai se fazendo".
Amparada nesse ensinamento, tive coragem para avançar e passar dos mitos e das duas ou três peças gregas que eu lera, para as obras de Homero.
Li a Ilíada e a Odisséia e, aos poucos, de fato, tudo ia como que ganhando forma porque Homero me levou a Virgílio, que me levou a Dante, intercalado com Hesíodo, e percebi, em algum momento, que o labirinto de significados no qual eu me sentira perdida é inevitável quando nos dispomos a fazer uma viagem literária e, mais que isso, que uma vez iniciada a caminhada, não há volta, porque a gente quer sempre ir além, mais e mais adiante, ultrapassar as colunas que dividem o conhecido do desconhecido, em busca de um sentido que nunca se completa.
Dia desses, meu filho Gabriel, hoje com quatro anos e meio, chegou em casa me contando uma história:
"Mãe você sabia que há muito, muito, muito tempo atrás, existiu um moço, que chamava Narciso, e que se apaixonou por ele mesmo porque viu o reflexo dele na água de um lago? É mãe, a gente leu a história dele hoje na escola! E sabia que também a Afrodite é a deusa do amor, e sabia que a medusa tinha umas cobras na cabeça e que a pessoa olhava pra ela e a pessoa virava pedra? E tem também mãe, a história do Eros, que recebeu um castigo, cortaram o pililiu dele e jogaram no mar e o sangue do pililiu dele virou a espuma do mar?".
Meu menino me contava aquelas histórias com a maior naturalidade, tirando de letra tudo que poderia, em princípio, parecer estranho, não-familiar, inverossímil ou questionável do ponto de vista racional, porque afinal não existem górgonas capazes de nos petrificar com seus olhos e as espumas do mar não são feitas do sangue que jorrou do pênis de Eros.
Acontece que as crianças têm uma capacidade essencial de lidar com o que lhes chega ainda informe e atemporal porque o mundo delas nasce "meio caótico" e só aos poucos "vai ganhando sentido" - o sentindo que nós adultos, temporalmente enquadrados, vamos lhes emprestando.
Resolvi contar para o meu filho outros mitos, como o da moça chamada Eco, que se apaixonou pelo Narciso e ficou muito, muito triste, porque ele não se apaixonou por ela, tão triste que se jogou de um precipício, e o amor dela era tão forte, tão forte, que a voz dela ainda pode ser ouvida e por isso quando a gente dá um grito à beira de um grande vale, a Eco repete as últimas letras do que a gente disse.
E contei também a história do gigante Polifemo, o monstro de um olho só, que foi enganado pelo Ulisses, um herói da guerra de Tróia, que ficou dez anos perdido no mar, tentando voltar pra casa e encontrar a sua Penélope, uma linda rainha que tecia um manto durante o dia e desmanchava durante a noite porque tinha combinado que só se casaria com um dos seus pretendentes no dia que terminasse de tecer o manto.
O mais interessante foi receber, um ou dois dias depois, o pedido da professora para que eu emprestasse o livro que tinha a tal história do Ulisses porque o Gabriel tinha contado para os amigos e os amigos queriam saber mais da história.
Semana passada, comprei pra ele uma versão da "Odisséia", adaptada pela Ana Maria Machado, e desde então meu filho não se separou do livro. Tem levado para a escola, onde a professora está contando a história para o grupo, mas trás de volta todos os dias e, de vez em quando, me pede para ler um "episódio" pra ele antes de dormir.
Junto com o livro dele, comprei pra mim "Antígona", que com "Édipo Rei" e "Édipo em Colono", compõe a chamada trilogia tebana.
Reli o primeiro, que eu lera durante o curso de mitologia; li o segundo, que eu já comprara, mas estava esquecido na estante; e li, finalmente "Antígona", que fecha o ciclo de Tebas.
Como era de se esperar, "Antígona" já me levou a outra peça, "Os Sete contra Tebas", que li hoje, de um fôlego só.
Ao final, percebi que a tragédia escrita por Ésquilo, termina no que seria o início de "Antígona".
De início, senti um certo desconforto, como que ameaçada pelas paredes de outro labirinto que se formasse à minha volta, já que "Antígona" e "Os Sete Contra Tebas" são histórias que se intercalam, se complementam, embora tenham sido escritas por autores diferentes.
Passado o estranhamento, lembrei-me do meu filho e da sua liberdade de ir e vir entre as histórias, sem se importar com o que veio antes ou depois, como quem monta e desmonta um imenso Lego, cujas formas se transmutam, se encaixam e desencaixam, deixando na imaginação uma imagem efêmera que logo se desfaz para dar origem a outra e outra e outra e assim até o infinito.
E penso agora que talvez, como é contado na trilogia tebana, a essência do que somos seja realmente passada para nossos filhos, de geração para geração, seja ela uma maldição ou uma benção.
Essa idéia me leva a imaginar que a desenvoltura do meu menino com os mitos talvez se deva também ao fato de eu ter lido muita mitologia grega, antes, durante e após sua gestação. E quem sabe, minhas leituras tenham ficado registradas no meu código genético e tenham sido transmitidas para ele por meio desse código que é, ele também, uma espécie de livro infinito e mágico que pode contar em detalhes o que fomos, o que somos e o que ainda seremos.
publicado por Simone Paulino em 11:08 PM Comments:
Quinta-feira, Agosto 26, 2004
"Os outros: o melhor de mim sou Eles"
Sobre o massacre aos moradores de rua
Em sua edição de outubro de 1876, o jornal "A Voz", de São Petersburgo, estampava a notícia do suicídio de uma certa Maria Boríssova, jovem costureira moscovita que viera tentar a sorte na capital. Sozinha na cidade grande, ela caíra na miséria e, por desespero, jogara-se do alto de um prédio, abraçada a uma estátua da Virgem Maria.
A tragédia da moça logo teria desaparecido e caído no limbo, não tivesse despertado a atenção de Dostoiévski. Em sua coluna no jornal "O Cidadão", o mestre russo diria: "Durante muito tempo não conseguimos deixar de pensar em certas coisas... elas como que nos perseguem, e até nos parece então que temos culpa dessas coisas".
Para expiar a culpa que sentia pelo destino trágico da moça, Dostoiévski escreveria no mês seguinte "Uma dócil criatura", uma novela inspirada na história da miserável Maria Boríssova.
Já fui vítima (vítima?) do tipo de culpa que Dostoiévski sentiu, não por uma miserável suicida, mas por causa dos moradores de rua que vivem jogados pelas esquinas de São Paulo.
Para quem não sabe, tive um irmão, alcoólatra, que durante vários anos viveu nas ruas da nossa capital paulista, engrossando a massa de marginais desvalidos que a nossa cidade abriga.
Meu irmão morreu no ano 2000, vítima de cirrose e complicações pulmonares. Não é difícil imaginar a culpa que senti por não ter conseguido livrá-lo a tempo daquela espiral que, eu sabia, fatalmente o levaria à morte.
Na época eu não havia lido nada de Dostoiévski, mas fiz o que Freud diria anos depois que os artistas fazem para lidar com seus fantasmas: Lancei mão da palavra, meu único e tosco instrumento, para não desabar com o peso da culpa que carregava.
Escrevi um conto sobre o meu irmão, no qual me comprometia a escrever um livro sobre a vida dele. Comecei a escrever o livro "O Marginal", mas não consegui avançar, pois me dei conta de que não conhecia meu irmão, já que ele passara a maior parte da vida longe da casa da nossa mãe. E conhecia menos ainda o universo ao qual ele pertencia. Desisti.
Um ano e meio depois, um professor me passou um e-mail, perguntando se eu toparia ajudar um morador de rua a escrever um livro. Aceitei sem titubear aquilo que entendi como uma espécie de retorno do reprimido.
Como quem se entrega a uma peregrinação, em busca de algum entendimento, durante quase dois anos, me embrenhei no mundo das pessoas que moram na rua, visitando albergues, viadutos, praças e barracos, reconstituindo a história do Jorge, o morador de rua ao qual meu professor se referira, que era também a história do meu irmão.
O resultado foi um romance-reportagem chamado "Identidade Perdida - Memórias de um Morador de Rua", lançado em dezembro do ano passado, em co-autoria com o Jorge.
Passados oito meses do lançamento do livro, confesso que eu me sentia mais leve, como se tivesse quitado minha dívida imaginária com meu irmão, com a vida e comigo mesma.
Mas eis que quinta-feira passada, dia 19 de agosto, dezoito dias depois do aniversário de morte do meu irmão, vejo estampada no jornal a manchete do massacre que fora feito durante a madrugada aos moradores de rua do centro de São Paulo.
Desde então, essa tragédia forçosamente me tortura o pensamento.
Tenho acompanhado obsessivamente as notícias, as declarações das autoridades e dos moradores, as investigações sobre o caso, as fotografias (algumas das quais, da Fabiana Beltramin, da "Folha de S. Paulo", a mesma fotógrafa e amiga, que generosamente realizou o ensaio do livro "Identidade Perdida").
Eu me sentia como se tivesse culpa pela morte dessas pessoas. Queria ter escrito antes sobre isso, mas não sabia o que dizer. Estava, de certa forma, naquele estado de inércia que se abate sobre a gente, quando a vida nos coloca diante de atrocidades incompreensíveis.
Hoje lendo as notícias sobre o massacre, fiquei satisfeita com o espaço concedido à mobilização que vem sendo feita pelo jornal "O Trecheiro", que é dirigido à população de rua, e feito por gente que sabe do que está falando porque acompanha, auxilia, reflete e lida todos os dias com as mazelas que atingem essa população.
Mas eu li também o texto de Contardo Calligaris, colunista da "Folha", que provavelmente não tem uma relação direta com essa população, e, apesar disso, me emocionou profundamente e me fez repensar minha responsabilidade sobre esse terrível acontecimento.
Ele diz em seu artigo como seria a São Paulo dos seus sonhos, mobilizada contra essa barbárie:
"Espontaneamente, na noite de segunda-feira, os edifícios e as casas dos Jardins, de Perdizes, da Mooca, do Tatuapé, da Lapa, da Vila Mariana, do Sumaré, do Itaim, etc. iriam se esvaziando. Um a um ou em família, os paulistanos sairiam às ruas, com um saco de dormir embaixo do braço, uma lanterna e uma garrafa térmica. E tomariam o caminho do centro.
Nas praças e ruas por onde passaram os assassinos, se espalhariam, para passar a noite. A maioria não dormiria. Conversaríamos com o vizinho do momento ou ficaríamos acordados por medo dos ratos e das baratas. Tanto faz.
Seria um jeito de afirmar que a cidade é nossa, não da morte, e que, como qualquer cidade, temos nossos loucos e nossos perdidos: eles abandonaram a corrida, mas continuam parte de nossa comunidade..."
O que Contardo me lembrou com seu texto é que as palavras têm sim um poder mágico de atingir uma zona insondável do nosso ser e fazer com que consigamos, mesmo que por um ínfimo instante, reconhecer, (ou pelo menos tentar reconhecer), que o outro somos nós. E por isso é preciso continuar escrevendo.
Para ajudar a nós mesmos e aos outros a reconhecer, inclusive, o desconforto que a presença dos miseráveis nos causa, porque na São Paulo dos nossos sonhos, tudo deveria ser perfeito, como as estações do metrô da Paulista, adornadas com obras de arte.
Sonhamos, às vezes, com uma São Paulo de ruas largas e arborizadas, de preferência um pouco mais vazia do que é, sem tumulto, em suma, sem os "excedentes" que a "enfeiam" e a "descaracterizam".
Acontece que a São Paulo real é um macrocosmo das nossas famílias, das nossas casas, e como em qualquer cidade, como em qualquer família, também temos nossos loucos, nossos perdidos, nossos dependentes, nossos depressivos. Pais, filhos, irmãos, amigos.
Portanto, esse talvez seja o melhor momento de olharmos para esses outros, que são um pouco de nós, e decidirmos que tipo de sentimento lhes devotaremos - estejam eles dentro da nossa casa ou embaixo dos viadutos.
Podemos amá-los ou odiá-los, ampará-los ou enxotá-los, apagá-los (a pauladas?) ou incluí-los em nossas cidades, em nossas casas, em nossas vidas.
O que não podemos esquecer é que seja qual for nossa escolha, sempre restará dela uma espécie de fragrância a saturar o ar que respiramos.
Todos os dias, a cada respiração, encheremos nossos pulmões desse ar, com o qual irrigaremos nosso cérebro e nosso coração.
Seremos, a cada sopro de vida, tomados por essa substância invisível e indizível, que poderá nos corroer com as moléculas tóxicas da injustiça, ou nos apaziguar com o efeito curativo da tolerância.
publicado por Simone Paulino em 2:38 PM Comments:
Sábado, Agosto 21, 2004
PELOS CAMINHOS DA ARTE
Encontrei, como que esquecido, numa das prateleiras da Livraria da Vila, um pequeno e precioso livro chamado Ensaios sobre Literatura, de J. W. Goethe, numa edição da Editora 7 Letras.
Sempre fico em dúvida quando me deparo com livros como esse. Ainda não li o Fausto, considerado obra-prima de Goethe, o que em si não seria um problema, já que ele é apenas um dos tantos clássicos que ainda desconheço, embora anseie por desvendar.
A questão é que há algum tempo adquiri uma certa idiossincrasia: fico um pouco constrangida ao ler comentários de e sobre autores, cujas obras principais eu não tenha lido. Sinto-me como se estivesse traindo o autor, desviando-me do que é essencial nele e correndo o risco de ficar presa aos comentários dos comentários.
Mas livros sobre livros fazem parte das minhas obsessões literárias, razão pela qual comprei e li a pequena coletânea de escritos de Goethe sobre literatura, a qual reúne quatro ensaios - Aos jovens poetas (1833); Comentário à Poética de Aristóteles (1826); Shakespeare e o Sem Fim (1826); e Para o Dia de Shakespeare (1771).
A certa altura do seu Comentário à Poética de Aristóteles, Goethe discute a finalidade da arte (em especial a tragédia) refutando a idéia de que a catarse provocada pelo teatro possa suavizar as paixões. "Quem progride no caminho de uma formação íntima verdadeira irá sentir que tragédias e romances trágicos de modo algum sossegam o espírito, mas deixam inquieto o ânimo e isso a que chamamos coração, resultando num estado de vaga indeterminação".
Essa semana, sem uma razão que eu possa explicar ao certo, nossa televisão que sintonizava somente os canais do "pacote básico" da TV a cabo, passou a sintonizar os canais reservados apenas aos assinantes de "pacotes especiais". Com isso, durante alguns dias, pudemos assistir à programação completa de vários canais, entre eles a HBO Plus, que, para minha sorte, exibia o filme "Pollock", com Ed Harris no papel do pintor Jackson Pollock - um mito da arte abstrata norte-americana.
Eu já ouvira falar muito superficialmente sobre o filme e tinha uma vaga idéia de quem era Pollock, sobretudo porque o trabalho dele é citado em outro filme que assisti recentemente, "O Sorriso de Monalisa", que por sua vez conta a história de uma professora de história da arte (Julia Roberts) que consegue mudar o modo como suas alunas enxergam o mundo, mergulhando-as na apreciação da arte moderna.
Num dado momento de "O Sorriso de Monalisa", a professora leva as alunas a uma espécie de depósito onde um caminhão está sendo descarregado. Às escondidas, mostra a elas uma tela de Pollock, atitude considerada altamente subversiva para os padrões cultivados pela escola em que as garotas estudavam, e em cujo currículo só havia espaço para as artes clássicas.
Meu conhecimento sobre o pintor americano se resumia a isso. Só depois de ver Pollock (o filme) fui saber que se tratava de um artista genial, que criou a chamada pintura gestual - uma técnica que consiste em gotejar, deixar escorrer a tinta do pincel que, ao invés de tocar a tela, apenas paira sobre ela. Um artista que teve ligações estreitas com os poetas surrealistas.
Além de destrinchar o processo criativo de Pollock, o filme mostra a personalidade complexa e atormentada do pintor, e toda a espiral decadente na qual ele mergulhou até a sua morte, em 1956, depois de ter sido aclamado pela Revista Life como "o maior artista vivo dos Estados Unidos", em 1949.
Quando acabei de ver o filme, fui para a Internet, ávida por mais informações sobre a arte dele. Sem muita dificuldade, consegui copiar imagens de algumas telas, visitei o site da Fundação Pollock, enfim, embarquei naquele universo com uma volúpia meio incompreensível até para mim.
Por ter compartilhado minhas descobertas, meu marido acabou contribuindo para que eu obtivesse mais informações, ao se encontrar por acaso com um vizinho do nosso prédio, que é pintor, e comentar, numa daquelas conversas corriqueiras, que tínhamos assistido ao filme e que eu ficara bastante impressionada com a história de Pollock.
Ênio (é esse o nome do nosso vizinho) disse gostar bastante do pintor também, e fez uma revelação interessante: "O Pollock foi um dos artistas americanos financiados pela CIA". E para provar o que dizia, mandou-me um recorte de jornal, publicado no ano 2000, em "O Estado de São Paulo".
Tratava-se de uma reportagem sobre o livro "The Cultural Cold War", da inglesa Frances Stonor Saunders, que disseca a influência da agência secreta americana sobre o mundo das artes e das letras, no período de 1947 a 1967.
A tese de Frances é que a "A Guerra Fria Cultural" começou quando os americanos sentiram a necessidade de conquistar a simpatia de intelectuais, não só dos EUA, mas também da Europa, onde era crescente o prestígio das esquerdas e do partido comunista.
Com esse propósito, teriam patrocinado simpósios, congressos, viagens, exposições, edições de livros e revistas. Além de Jackson Pollock, teriam sido cooptados nomes como Jean Paul Sartre, George Orwell, Bertrand Russel, entre muitos outros.
A avalanche de informações e descobertas se precipitaram sobre mim de tal forma, que me deixaram inquieto o ânimo e isso a que chamamos coração, resultando num estado de vaga indeterminação, como dissera Goethe.
Eu queria muito registrar essas sensações, mas as palavras como que me pareciam insuficientes.
Na quinta-feira à tarde fui dar uma volta no Parque do Ibirapuera. Levei jornal, uma revista e dois ou três livros. Procurei um lugar tranqüilo e ensolarado e me pus a ler. Só depois de quase uma hora de leitura, me dei conta de que havia me sentado praticamente em frente ao MAM (Museu de Arte Moderna).
Apesar de morar bem perto do Ibirapuera, de freqüentá-lo de vez em quando, de ter ido à Oca ver a famosa exposição do Picasso, eu nunca havia entrado no MAM.
Entrei. Havia lá uma exposição cujo slogan era: "Eles fizeram com a arte o mesmo que Cabral: mudaram o rumo. Cinco pintores da Modernidade Portuguesa".
De todos os quadros expostos, o que mais gostei é de José Almada Negreiros, um artista múltiplo que se dedicou às artes plásticas, à literatura e ao teatro, quase que simultaneamente. A obra em questão é um retrato de Fernando Pessoa, o mesmo poeta que disse:
"Aproveitar o tempo?
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Milton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!"
Ao fim e ao cabo desse meu percurso, me vi inclinada a parafrasear Goethe, generalizando uma afirmação que ele dirigira exclusivamente a Shakespeare: "A arte é uma bela caixa de raridades, na qual a história do mundo passa diante de nossos olhos, suspensa nos fios invisíveis do tempo".
publicado por Simone Paulino em 11:49 PM Comments:
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